A vacina experimental foi testada em 20 mil crianças na Ásia e na
América Latina. Os próximos passos da farmacêutica são tentar aprovação
regulatória em países afetados, entre eles o Brasil
Uma vacina
experimental contra a dengue, batizada de TAK-003, mostrou resultados iniciais
promissores em um grande estudo realizado em vários países. Fabricado pela
farmacêutica Takeda, o medicamento apresentou eficácia de 80,2% na prevenção da
doença, de acordo com um novo estudo publicado pelo periódico The New England
Journal of Medicine intitulado “Efficacy of a Tetravalent Dengue Vaccine in Healthy
Children and Adolescents”. Entretanto, questões sobre sua
eficácia e segurança continuam sendo a principal preocupação. Ainda não está
claro, por exemplo, se a vacina pode aumentar a gravidade da doença em alguns
receptores, como aconteceu com a Dengvaxia, da Sanofi, administrada em 1 milhão
de crianças nas Filipinas.
Mas ao que
tudo indica a nova vacina da Takeda parece funcionar em quem nunca foi exposto
aos vírus da dengue. Baseado em uma cepa enfraquecida do vírus da dengue, até
agora, os testes foram realizados em 20 mil crianças e adolescentes, de 4 a 16
anos, em oito países da Ásia e América Latina, onde a doença é endêmica. Doze
meses após os participantes receberem sua segunda e última dose, os
pesquisadores compararam quantas pessoas nos grupos placebo e vacina
desenvolveram casos confirmados de infecção com qualquer uma das quatro cepas
diferentes, ou sorotipos do vírus da dengue. A vacina teve 97,7% de eficácia
contra o sorotipo dengue 2. Já para o sorotipo 1, diminuiu o número de
infecções em 73,7%. Enquanto para o sorotipo 3, em 62,3%. Já entre os participantes
que adoeceram, reduziu o risco de hospitalização em 95,4%.
De acordo
com o Dr. Shibadas Biswal, diretor médico da Takeda, a análise dos dados
no final da primeira parte do estudo demonstra que a vacina em geral foi bem
tolerada e que nenhum risco importante de segurança foi observado até o
momento. “Continuaremos a avaliar a segurança e a eficácia por um período de
quatro anos e meio. Além disso, estamos motivados ao ver taxas semelhantes de
eficácia nos participantes – de 80,2% nos 12 meses após a segunda
dose –, independentemente da exposição prévia à dengue”, acrescentou.
Em relação
ao risco de a vacina potencializar casos de recorrência, o Dr. Biswal explica
que com base na análise no final do primeiro teste Tetravalent Immunization
Against Dengue Efficacy Study (TIDES), não há evidências de melhora da doença
na população soronegativa inicial que recebeu a vacina. Ainda segundo o médico,
essa população continuará a monitorada cuidadosamente à medida que novos dados
se tornarem disponíveis a partir das outras duas partes do teste.
A vacina
proposta pela Takeda foi projetada para proteger contra todos os quatro
sorotipos da dengue e ativar vários ramos do sistema imunológico, incluindo
anticorpos e células imunológicas. “O TAK-003 baseia-se no vírus do sorotipo 2
da dengue atenuado vivo (DENV-2), que fornece o esqueleto genético para todos
os quatro sorotipos da vacina. “Como nossa vacina candidata é baseada em uma
forma atenuada do próprio vírus da dengue, ele expõe o indivíduo a vários
componentes do vírus que podem ser importantes na proteção contra futuras
infecções pelo vírus”, ressaltou.
Diferentemente
dos testes de eficácia da Dengvaxia, a Takeda avaliou a pré-vacinação e se os
participantes do estudo tinham anticorpos de uma infecção prévia por dengue.
Cerca de um em cada quatro participantes era soronegativo e, ainda que nenhum
sinal óbvio de dano induzido pela vacina tenha ocorrido, o artigo demonstra que
a eficácia geral da vacina nesse grupo caiu para 74,9%. Além disso, a vacina
não ofereceu proteção contra a dengue contra o sorotipo 3 a essas pessoas – os
resultados foram inconclusivos.
“Embora não possamos fazer comparações entre a
nossa vacina proposta e outras, estamos felizes em compartilhar informações
específicas sobre o TAK-003. Nosso estudo de fase 3 TIDES foi concebido de
maneira diferente de outros estudos. Nós o projetamos para avaliar a segurança
e a eficácia contra todos os quatro sorotipos e independentemente da exposição
prévia à dengue. Amostras de sangue de linha de base foram coletadas de todos
os indivíduos participantes do estudo para permitir a avaliação de segurança e
eficácia com base no status sorológico”, destacou o Dr. Biswal.
O estudo
TIDES é um estudo de Fase 3, duplo-cego, randomizado e controlado por placebo,
desenvolvido para avaliar a eficácia, segurança e imunogenicidade de duas doses
da vacina tetravalente candidata contra a dengue em indivíduos expostos à
doença e indivíduos não-cientes. Este é o maior ensaio clínico intervencionista
da Takeda até o momento, com mais de 20 mil crianças e adolescentes saudáveis
com idades entre quatro e 16 anos vivendo em áreas endêmicas.
Os próximos
passos são tentar aprovação regulatória em países afetados, entre eles o
Brasil. O primeiro pedido deve ser feito no segundo semestre de 2020.
Atualmente a dengue é uma das principais doenças reemergentes e se tornou um
problema global fazendo com que nenhum país tropical ou subtropical tenha êxito
em seu controle. Em 2019, ela foi considerada uma das 10 principais ameaças à
saúde global pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Cerca de 400 milhões de
pessoas são infectadas e cerca de 25 mil mortes são registradas anualmente.
Questionado sobre a perspectiva de comercialização
da vacina, o Dr. Biswal é categórico ao afirmar que é muito cedo para comentar
detalhes específicos sobre o acesso, mas que estarão concentrados em fornecê-la
em países endêmicos e onde houver maior necessidade, paralelamente ao
suprimento em países não endêmicos. “Queremos levar a vacina às pessoas que
precisam dela o mais rápido possível. O dossiê planejado incluirá dados de
segurança e eficácia do principal estudo TIDES e dados de apoio de outros estudos
de Fase 3 realizados pela farmacêutica japonesa. Além da eficácia geral da
vacina de 80,2% observada na análise de endpoint primário, o médico diz ainda
que estão encorajados pela redução de 95,4% nas hospitalizações estudadas e
associadas à dengue.
Fonte https://sbmt.org.br/nova-vacina-contra-dengue-apresenta-bom-desempenho-em-grandes-ensaios/

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